Archive for novembro 2009

o que não coube no #tuitesuainfancia

É difícil lembrar de tudo. Lembro pouco até o meu aniversário de 3 anos. Acho que esse, foi o último aniversário que passei com o meu avô paterno. Lembro muito bem dele me erguendo pro alto, e eu com medo, frio na barriga, mas com uma vontade enorme de ir pro alto e sentir aquele mesmo misto de coisas mais uma vez. Em geral, antes disso , eu lembro de acordar cedo pela manhã, ir para a cozinha, subir numa cadeira e pegar uma caixinha pequena de cereal de chocolate (choco krispis). Eu mesma preparava.

O que eu mais brinquei foi de fazer comidinha. Gostava de misturar alguns alimentos com terra e flores (ainda lembro do cheiro e da textura das pétalas ). Eu brincava num forno velho, abandonado atrás de casa.

Tinha um dia certo pra gente (eu, minha mãe e a vó) acordar mais cedo pra fazer rancho no mercado. A vózinha que era dona da casa onde morávamos, sempre ia bater na janela do quarto da minha mãe e dizia: “acorda peludo!” Eu a considerava (e vou considerar pra sempre!) minha vó de verdade, de sangue, mesmo que não houvesse nenhuma ligação sanguínea entre a gente, tanto que tinha dias que eu ficava mais na casa dela, do que na minha.

Nas tardes em que eu tava “com fome”, eu ia lá na vó e ela me dava R$1,00 pra eu ir no mercado e comprar uma lata de beijinho. Eu tinha uns 4 ou 5 anos e já atravessava a rua sozinha, mas sempre com alguém cuidando né?... Aí eu chegava no mercado e comprava o beijinho. Todo mundo já me conhecia ;)

Naquele tempo, o tio Ganso ia me visitar. Ele me levava no bar da esquina, em cima das costas dele, pra comprar picolé (aqueles que vinham com frutinhas desenhadas no palito). Um dia consegui achar um que tivesse todas as cerejinhas, então, voltei super faceira no bar pra trocar o palito por outro picolé.

Algumas manhãs, vinha um senhor entregar leite lá na casa da vó. Ele sempre tinha um bloquinho com folhas compridas e não muito largas, de cor azul com algum detalhe em vermelho. Lembro que aquele papel tinha um cheiro inconfundível, meio estranho, mas não ruim.

Algumas noites íamos eu, a vó e minha mãe na casa da Ely e do Miro, que ficava bem na frente onde morávamos. A vó preparava sua bolsinha: colocava seu remédio, um pacote de bolacha salgada, uma lanterna e acho que só... Chegávamos no Miro. Casa grande. Primeiro tinha a sala, depois a cozinha. Tudo grande. O propósito da visita era geralmente ir assistir o Jornal Nacional. E eu sentava na mesa com o Miro. Cadeira grande. Comíamos rosca com salame.

Tinha vezes em que eu, a vó e a Anne íamos pra horta (que eu chamava de roça). Eu sempre ia com um potinho pra colher chá e café.

Eu lembro de uma cena meio estranha que aconteceu perto do natal. Foi como se surgisse do nada, no meio da sala, uma cesta cheia de gatinhos. Eu vi, embora muitas pessoas digam que isso não tenha realmente acontecido.



Enfim, poderia escrever aqui por séculos todas as minhas lembranças, todas as coisas bonitas que vivenciei, mas não. Tem momentos e sentimentos que são impossíveis de se transferir para o papel.

Ah, que saudade. É por esses e muitos outros motivos que eu jamais queria crescer. Acho que se no futuro, alguém criar mesmo uma máquina do tempo, eu vou voltar aos meus 4 anos e parar por lá. Tudo bem que não tínhamos a casa que temos hoje, tudo bem que eu não conhecia a metade das pessoas que eu conheço hoje, tudo bem que eu não tinha muita coisa que eu tenho hoje, mas eu tinha a felicidade e o amor em excesso e não precisava me preocupar com as coisas e isso já bastava.

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coração oposto ao mundo

Ao primeiro sinal do sentimento, este vem já impregnado de pensamento, e não chega a ser vivido em sua incerteza. É como estar presente e ao mesmo tempo ausente; é ligar-se às coisas da vida real, mas ligar-se ao mesmo tempo a muitas outras coisas, que lá não estão, e que se calhar, não estão em parte alguma. Ora, estar presente, ou ligar, se as coisas da vida real, tem que ver, diretamente com o coração e com os sentimentos. E para ele, o coração é justamente o que não funciona, ou funciona mal, por estar sempre atrelado à razão.

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