O menino é o pai do homem

E basta instuí-la ali para que se instale em mim o íntimo confronto de estar em lugar conhecido e seguro, que me reconcilia comigo mesmo. Porém, há momentos que não sou eu que a procuro nem o meu olhar que a inclui. Nesses momentos, tenho a estranha sensação de que é a foto que busca o meu olhar. E com tal força, que não resisto, largo o que estiver fazendo e, por longo tempo, me dedico a contemplá-la, numa viagem ao meu passado e, ao mesmo tempo, para dentro de mim. Assim tem sido ao longo desses anos.

Como é possivel, me pergunto, que a fina superfície de nitrato de prata que reproduz a minha imagem - instante fugaz cristalizado sobre um papel - possa durar mais que o meu próprio corpo? Considero assombroso que a fotografia, mais poderosa que a vida, possa estancar o fluxo do tempo e congelar aquele momento, que jamais se repetirá. Olhar a própria foto como faço agora é isolar o instante arrancado do tempo, resgatar o momento vivido e congelar o esboço de gesto que se eternizou inconcluso. É como se um clique aprisionasse a vida no papel - assim como a escrita aprisiona a fala -, embora ela, seguindo seu curso fora da moldura, tenha me trazido até aqui, aquele momento ficou no papel, no qual agora me vejo então.

Toda imagem é grávida de histórias, e cada história sugere infinitas imagens. A câmara escura da máquina fotográfica é como um palco, cuja caixa teatral pode recriar, fecundados pela luz, o homem e o mundo. A fotografia nasce em silêncio, porém, com duas almas. A alma tecnológica - fiel, rigorosa, infalível e implacável - dá a autenticidade de verdadeiro a tudo que registra. A alma artística - inexata, artificial e subjetiva - dá a emoção. Daí a fotografia ser entendida como a síntese de corpo e alma, de matéria e espírito. O que se vê numa foto depende de quem olha - da sensibilidade da pessoa, do que ela sabe da vida, do que acumulou de vivências, experiências e emoções. Duas pessoas, por serem diferentes, não têm a mesma visão de mundo, não percebem o mesmo dourado da lua, não partilham as mesmas impressões sobre a dor ou sobre a alegria e, quando olham uma fotografia, não vêem as mesmas coisas, nem sentem as mesmas emoções. Cada um vê o mundo, assim como cada pessoa, à sua maneira. Cada pessoa que nos olha, nos vê à sua maneira. Sou tantos quantos são os que me vêem.

Quase a ouço dizer: "Deifra-me ou te devoro". E não consigo fazer nada que não seja olhar para ela. E o que vejo não é uma imagem qualquer, é o meu próprio retrato. Se o que percebo na foto reflete a pessoa que sou, o retrato que vejo à minha frente é uma espécie de auto-retrato.

Se o retrato é um espelho para mim, sou um espelho para o retrato. A mistura de identidades, a aparente confusão de papéis, que une e separa quem está na foto de quem a vê, que aproxima e afasta a criança de mim, cria uma tensão por me sentir, ao mesmo tempo, nos dois lados; observando-me e sendo observado.

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